domingo, 1 de fevereiro de 2009

Heráclito e Narciso: metamorfose

Do que o filósofo grego pré-socrático Heráclito escreveu em seu poema “Da natureza” conservou-se apenas fragmentos. Dentre estes, o mais conhecido é o que diz que “não se entra duas vezes no mesmo rio”, o qual é símbolo de toda a sua filosofia do fluxo e do devir, ou seja, de sua concepção da realidade como contínuo câmbio da naturaza e, ademais, colocando a guerra com a mãe de todas as coisas, uma vez que a mudanza se dá por luta de estados, sem a qual as coisas permaneceriam fixas. A primeira via de interpretação para a impossibilidade de se entrar a segunda vez no mesmo rio se dá pela consideração de que o rio já tem e sempre terá águas novas, donde a água uma vez sentida já passou e a que se sente na segunda vez é outra. A segunda via de interpretação se dá na percepção de mudanza da própria pessoa que cruza duas vezes o rio referido: assim como as águas do rio já são outras também a pessoa é outra, e eis o que enfatiza Hegel. Ou seja, tanto o percebido ou sentido como o perceptor ou sentente mudam, o que não poderia ser de outra forma, uma vez que ambos fazem parte da naturaza e, se esta é puro fluxo e devir, também o são suas partes integrantes.
Agora bem. Pense-se na figura mitológica de Narciso, o qual, ao se ver refletido na água, ficou encantado com seu reflexo e por isto teve o fim que teve. Esqueça-se a lectura narcisística de Narciso e tenha-se em mente esse mito em relação com a concepção de natureza como fluxo. O que faz Narciso não é outra coisa que não entrar no rio, ou seja, não cumpre a trajetória de instauração do fluxo. Assim, conserva-se na margen, parado, fixado. E vem a ser o conceito de fixidez o contrário do conceito de fluxo: Narciso, por tanto, nega o fluxo. Em seu caso especial, como a água está parada (para que assim seu reflexo possa se dar como se dá), esta não flue. Então, nem o percebido nem o perceptor assumem o fluxo da natureza: ao contrário, se prendem à fixidez. Ademais, Narciso se fixa por ver a sua imagen, e este é o capital: caso se adentrasse à agua, salvaguardaria tanto o seu fluxo como o da água, salvaguardando o fluxo da natureza.
Não se esqueça: o que posibilita a fixidez e a fuga do fluxo, por parte de Narciso, é a contemplação de sua imagen. E isso quiçá queira dizer que a imagen só posibilita a fixidez, e, portanto, é fuga do fluxo ela mesma. Por outro lado, a aparição da imagen também só é possível com a fixidez do fluxo da natureza. Assim, a imagen, aqui, é a representação fixa de um momento fixo. Seria esta, então, a natureza primordial das imagens que se fazem, sendo, destarte, a natureza própria da construção da imagen um abraço à fixidez e um esquecimento, mesmo que ligeiro, do fluxo. A apreensão disto na escultura e na pintura é demasiado fácil, uma vez que são artes da imagen fixa. Contudo, caso se tenyha em mente que o fluxo munca se encerra e que, ao contrário, uma representação, mais cedo ou mais tarde se exaure, então a apreensão da fixidez em todas as manifestações que trabalham com a categoría de tempo.
Isto no que concerne à construção da imagen, ou, como se extendeu, às demais artes. Agora pense-se em Narciso e sua atitude, ou seja, pense-se na estética da percepção, ou recepção. Como se afirmou o fluxo é negado no mito por causa do maravilhamento de Narciso ante sua imagen, o que quer dizer que a própria contemplação é um abraço à fixidez. Assim sendo, a fruição estética é uma certa fixação e fuga do fluxo – este só poderá ser apreendido nas artes que podem representar algo dele, ou seja, nas artes que têm que ver com o tempo. Contudo, ainda é uma representação, portanto, nao a fruição da efetividade mesma. Donde a contemplação estética se dá na fixidez do fluxo, e, então, jutando-se à fixidez da construção artística, tem-se uma dupla fixidez da natureza, uma dupla fuga do fluxo da realidade.
Posto isto, para fazer referência a um quadro de Dalí, Metamorfoses de Narciso, este personagem mitológico executa, por assim dizer, uma metamorfose na maneira de lidar com a naatureza e o seu devir: em detrimento desta, opta pela fixa contemplação de sua imagen fixa. E, depois desta fruiçãó, o desejo de se acercar de sua própria imagen o assalta e então ele se atira à água e morre, extinguindo também o reflexo de si mesmo, ou seja, a representação da imagem. O que quer dizer que o desejo de adesão total à representação artística se encerra com o término da vida, e, com este, se destrói a arte. O fluxo aqui é retomado através da corrupção da construção e fruição artísticas, as quais só puderam ser geradas por meio da fixidez. Assim sendo, destruída a fixidez instaura-se novamente o fluxo. Para forjar um aforismo de inspiração heraclíteca: morte do fluxo gera a fixidez e a morte da fixidez gera o fluxo.
Contudo, cabe mencionar novamente que, se por um lado a adesão total à representação artística acaba com a vida, com o fim da vida também se acaba a arte. Quiçá, então, possa-se extrair disto que, de certa forma, a adesão à fixidez é uma certa maneira de se manter a vida, muito embora negue sua natureza mais elementar; a representação é, pois, uma forma de manutenção da vida. Por outro lado, a fixação (no sentido patológico) à fixidez acaba também por negar a vida. Caso Narciso, depois de se contemplar na água, tivesse se banhado nesta, teria salvaguardado o fluxo ao mesmo tempo em que a sua vida, embora com o fim da representação. No en tanto, de uma forma ou de outra, a representação cessaria, uma vez que, como já foi dito, esta é incapaz de aportar todo o fluxo incesante, ou seja, sempre pára em algum determinado ponto. Contudo, tendo salvaguardado a a sua vida, Narciso poderia voltar no dia seguinte para se contemplar, quando, aí sim, as águas e ele mesmo seriam outros e o fluxo se instalaria na representação de sua imagem de agora em relação com a sua imagem de antes. O que quer dizer que há a possibilidade de evocar o fluxo dentro das fruições estéticas sucesivas: o receptor, quer queira ou não, já não será o mesmo, o que abre discussão da manutenção da áura da obra de sarte, tendo-se em vista a noção de mirada, ou de intencionalidade (para usar um termo husserliano) do receptor. Mas este é tema para outro lugar.
Por fim, não se poderia pensar o mito de Narciso como um mito da representação?

Um comentário:

Marília disse...

Igor, conseguiste me arrancar as vísceras com esse texto.