sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Marcel Duchamp: atividade e intranscendência


Em “A desumanização da arte”, Ortega y Gasset coloca que a arte jovem (neste tocante se refere ao cubismo e expressionismo) tem por primeira característica tratar o objeto a ser representado da maneira menos humana possível, e daí o título do ensaio. Ainda diz o filósofo espanhol que se trata de uma arte artística, uma vez que causava estranhamento ao público de então (o texto é de 1924), o qual ainda não tinha, digamos assim, uma educação visual para compreender ou assimilar aquela estética que se anunciava. Entretanto, das características dessas vanguardas a mais importante vem a ser a intranscendência desta arte, auferida através de um influência negativa da arte romântica, a qual pretendia solucionar o mundo através da fruição estética (neste sentido veja-se Schopenhauer, por exemplo). É bem verdade que, se ficarmos com Amy Dempsey, a partir de 1918, temos a busca de uma nova ordem e, portanto, uma vanguarda como o surrealismo não pode compartilhar deste valor intranscendente.
Mas volte-s algo antes e teremos a intranscendência na arte por excelência: o dadaísmo. Desde o seu batizado, ao se escolher um nome que nada quer significar, já se apreender o espírito deste movimento: eles aspiram a nada significar. Isto se percebe na poesia de recorte e colagem de jornal, por exemplo. Contudo, a grande expressão do movimento vem a ser o francês Marcel Duchamp e, mais especificamente o advento do ready made. Ora, ao estabelecer que um objeto já fabricado – como um mictório, o primeiro ready made – tem status artístico, Duchamp consegue erradicar toda e qualquer transcendência na arte: já não é mais uma arte que pretende revelar verdade, representar a natureza, ou, sequer, arte pela arte. É o próprio cheque desta. E mesmo isso seja sintomático, como se perceberá adiante. Nunca antes se pensou um rebaixamento tão grande em relação à arte. E também não seja por acaso que depois do Dada passa-se para a busca de uma nova ordem, busca da qual fizeram parte artistas dadaístas, os quais desembocaram no surrealismo. Contudo, examine-se anteriormente, e mais de perto o legado artístico de Duchamp para que, desta forma, encontra-se esse elogio da intranscendência na arte.
Pode-se dizer que, segundo algumas considerações filosóficas, a primeira grande afirmação da intranscendência da arte, em Duchamp, se dá no quadro cubo-futurista “Nu descendo a escada”, ao, não só o artista representar o fato pretendido de maneira pouco humana como, também, conseguir representar o devir como nunca dantes. Ora, vem a ser o devir a pura realidade constante do mundo, sem qualquer ordem superior que estabeleça uma unidade, uma fixidez. Percebe-se então, no referido quadro, a primeira representação integral do devir, do fluxo (sobre este ponto veja-se “O ‘Nu descendo a escada’, de Duchamp: o problema do fluxo na pintura”); e, desta feita, a primeira representação da intranscendência em Duchamp.
A seguir, têm-se as pinturas dos moedores e dos moldes metálicos e também a concepção da “Noiva”, os quais irão formar, em conjunto, “O grande vidro, ou, a Noiva despida por seus celibatários, mesmo”, onde, plasticamente, pois ainda se trata de pintura, a desumanização chega ao auge, pois representa figuras humanas sem qualquer traço humano, quase uma pura abstração: nenhum traço humano é concebido. E, quando se tem em mente que para a completude da obra (que durou cerca de dez anos) Duchamp fez uso de uma rachadura no vidro, devido a uma queda, o artista incorpora definitivamente o devir, ou melhor, o acaso, desta feita no próprio fazer artístico. Tem-se assim outro viés da intranscendência da arte.
E então Duchamp chega aos ready madies: um dos maiores passos para a intranscendência da arte. Como já foi explicitado anteriormente, aqui o artista francês rebaixa a arte ao ponto que, sequer a técnica se configura como fim em si ou condição necessária para a produção artística; e, desta feita, se desvela o pressuposto para a arte conceitual. Marca também o uso inaudito da técnica reprodutiva na arte: nem fotografia e nem cinema, mas, a apropriação de objetos industrializados tomados para o próprio questionamento e fazer artísticos. Outra faceta da intranscendência.
Estabelecido já Duchamp no epicentro artístico, este passa, então, a dedicar-se ao projeto dos museus-valise, os quais comportam reproduções menores de suas principais obras; e, atividade a qual o artista se dedicará daí em diante, uma vez que o trabalho a ser feito em relação ao questionamento e fazer artístico já fora terminado. Tem-se, então, mais uma utilização da reprodutibilidade técnica, desta feita concernente a reprodução em série, a qual castra definitivamente o conceito de aura, como expõe Walter Benjamim em “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, e, portanto, escamoteando o valor de culto do objeto de fruição estética. Esta se configura uma quarta manifestação da intranscendência da arte no artista francês.
Após o advento do museu-valise, Duchamp pouco cria artisticamente. Pense-se que a função por ele estabelecida a si mesmo fora cumprida. Destarte, ele passa a se dedicar às reproduções dos museus-valise e, fora isto, quase abandona a arte para jogar xadrez. O que faz no âmbito artístico não ajuste em “O grande vidro”, além de produções esporádicas, das quais a mais importante vem a ser a instalação “Dados: 1° a queda d’água, 2° a lâmpada de gás”; e também mencione-se a personagem travestida “Rose Selávy”, nas quais o artista antecipa as tendências contemporâneas. Nisso tudo ainda é possível enxergar mais um viés intranscendente da arte, o qual vem a ser a tomada de consciência de que a arte não é uma instancia superior a qualquer outra e que, assim sendo, a atividade artística não é mais ou menos importante do que as demais. Isso se pode perceber nas considerações que Albert Camus faz acerca da “Arte Absurda” em seu ensaio “O mito de Sísifo”. Assim, negado o valor superior e, por que não dizer? transcendental da arte, tem-se mais outra faceta da intranscendência da arte em Duchamp.
No mais, o que sempre parece subsistir em Duchamp é uma consciência da necessidade de certa atividade para a própria manutenção da consciência do que se passa.

Apêndice: em torno de “Dados: 1° a queda d’água, 2° a lâmpada de gás”.

Caso se force ainda uma leitura em torno de “Dados: 1° a queda d’água, 2° a lâmpada de gás”, pode-se perceber mais uma característica, talvez a última. Retome-se a idéia de quebra de culto, de Walter Benjamim, no já referido texto: a noção de quebra do valor de culto se dá pelo fato da reprodução técnica da obra, que tira o seu caráter de autenticidade e de aura, ao contrário do que acontece na fruição de um quadro dentro de um museu, quando se tem a possibilidade de culto de um objeto estético. Contudo, para a percepção da perda de culto da referida obra de Duchamp é preciso que se pense em outra forma de observação. A instalação se constitui num cômodo, onde está deitado o manequim de uma mulher despedida e com as pernas abertas, tendo ao fundo uma paisagem algo irreal, que contém o flou da paisagem às costas da Mona Lisa. Contudo, tal visão só é possível através de dois buracos que contém a porta a qual daria acesso a esse cômodo. Assim, o que o espectador faz é “espiar” a obra; ou, o espectador torna-se um voyeur. E é justamente essa característica de voyeurismo que impossibilita o valor de culto na referida obra. Destarte, tem-se a última expressão da intranscendência da arte em Marcel Duchamp.

Um comentário:

Pedro disse...

Não acho que Duchamp "escamoteie o valor de culto". Acho essa uma compreensão prematura do dadaísmo (e das vanguardas de um mod geral). Hoje, o urinol do Duchamp é tão cultuado quanto a Monalisa, e há todo um aparato criado a posteriori de mil signos de sua autenticidade e irreprodutibilidade... e no entanto, a arte continua reprodutível (como talvez empre fora, mas de maneira menos eficaz do ponto de vista, apenas, da semelhança da reprodução em relação ao original)...
O que Duchamp parece ter feito, e de maneira genial, foi colocar o valor de culto em devir... mais do que expulsá-lo da arte ou de nossa consciência... talvez mais do que profanar o que era outrotra sagrado, o que ele fez foi sacralizar cada mínimo instante ou objeto qualquer