terça-feira, 28 de agosto de 2007

A arte na Trilogia da Vida, de Pasolini.

Na Trilogia da Vida, de Pier Paolo Pasolini, composta dos filmes Decameron (1971), The Canterbury Tales (1972) e Arabian Nights (1974), temos, principalmente nas duas primeiras películas, uma reflexão acerca da arte.
Apesar da constante sexualidade explícita que permeia os filmes, temos, entre as histórias que se passam em Decameron, a de um pintor (interpretado pelo próprio Pasolini) que chega a uma cidade para pintar o retábulo de uma igreja e, ao final desta narrativa, que também encerra o filme, a pergunta:
“Por que fazer arte se sonhar com ela é tão mais doce?”
Ou seja: por que fazer arte se esta á uma empreitada fadada ao fracasso, ao não conseguir ser tão doce quanto o referido sonho, não tão real quanto a própria natureza ou não ser tão bela quanto a vida? Sendo a arte inútil, como pretendia Wilde, por que fazê-la?
A resposta será dada no filme seguinte, The Canterbury Tales, onde, no meio de mais histórias de sexualidade aflorada, temos a figura de um escritor (Geoffrey Chaucer que é o próprio escritor dos contos que dão base à película, e mais uma vez interpretado por Pasolini). Mais uma vez ao final, vem a solução para o problema anterior, na seguinte frase:
“Aqui terminam esses contos, narrados pelo simples prazer da fazê-lo.”
A saída da aporia sugerida por Pasolini não poderia encerrar em si maior simplicidade, sabedoria e imanência: o fazer artístico tem sua razão e justificação no prazer do constructo e é, por sua vez, um constructo de prazer.
No filme que encerra a Trilogia, Arabian Nights, a questão da arte não é explicita como nas outras duas obras e é unida a uma outra: um jovem decide fazer um mosaico para uma rainha que tem aversão a homens, e pretende assim conquistar o amor da mesma. Pretensão bem sucedida: a arte aqui serve para criar ou despertar o amor. E, o que é o amor se não uma forma de prazer? E o que seria isso se não um prazer gerando outro?
É capital lembrar que as obras que dão origem à Trilogia de Pasolini se passam em situações adversas: a peste em Decamerone, a difícil viagem para a Cantuária em The Canterbury Tales e o Sultão versus Cherazaade em As Mil e Um Noites. E, de situações adversas que gerarão dor, através da narrativa dessas histórias, temos a extração do prazer. E, no fundo, seja isso o que podemos assimilar da referida obra pasoliniana: a arte como fonte de prazer e escamoteamento da dor: isso baseado nas noções morais humeanas onde podemos alargar e dizer que a vida consiste em aumento do prazer e supressão da dor. Contudo, não tomemos a arte aqui como a fonte prazer, mas como uma fonte de prazer, como o é o automóvel para o piloto, a jogo para o atleta, a cozinha para o cozinheiro e o sexo para o ninfomaníaco. Então, o fato de se fazer arte não terá que ver com o contato com a idéia do Belo, ou a intuição que conhece puramente a Idéia ou ainda a educação humana. A arte é produzida e recebida unicamente com vistas ao prazer e o que se possa seguir daí vem a reboque, como nos mostra Arabian Nights, em que o prazer de fazer arte desemboca o prazer de amar.
Assim, não há qualquer suporte oculto por trás da arte: é apenas um exercício que dá prazer a alguns e, quiçá, o que está atrás de tudo seja o prazer.

Um comentário:

Ana Carla disse...
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